Minha experiência em laboratório nível 3 de biossegurança
- Bianca Peres
- 8 de mai. de 2025
- 4 min de leitura
Como já trabalhei na triagem de fármacos para o tratamento da COVID-19, fiz um treinamento para poder trabalhar no laboratório nível 3 de biossegurança. É uma grande experiência que gostaria de compartilhar com vocês!
Primeiramente, vou falar do treinamento teórico. O primeiro passo para estar apto ao trabalho. No dia do treinamento, tentei já me acostumar com a máscara N95. Demorei umas 2h para não me sentir mais ofegante.
Ela veda muito! Aliás, no curso, nós passamos por um teste de vedação da máscara para saber se ela é adequada ao rosto.
Para isso, você deve colocar a cabeça num saco com um orifício por onde é borrifada uma solução bem amarga. Se a máscara está perfeitamente ajustada, você não sente nada.
No curso também participamos de algumas dinâmicas para ver como procedimentos corriqueiros no laboratório formam aerossol.
A intenção é mostrar que mesmo em NB2 é preciso ficar atento a esse tipo de contaminação. Ao colocar qualquer material no fluxo, é preciso limpá-lo! Álcool 70% em tudo!Também provamos alguns modelos de EPIs.
Eu particularmente não gostei de usar o respirador (parecendo um capacete de astronauta). Preferi a burca (o pano azul que cobre o rosto todo). No geral, a roupa é bem sufocante. Lembrando que, com a burca, a máscara N95 vai por baixo.
A segunda parte do treinamento para utilização do laboratório de biossegurança Nível 3, corresponde à primeira entrada no laboratório.
Nessa primeira entrada, o foco é a colocação e retirada dos EPI´s, aprender onde colocar as coisas (como pertences pessoais, lixo, etc) e compreender por onde que entra e por onde sai. As portas são controladas por um sistema de modo que você não possa voltar para trás, apenas seguir o fluxo.
Então, ao chegar, entramos numa salinha onde devemos colocar nossas roupas. Toda a roupa deve ser retirada (no treinamento, utilizamos um maiô por baixo dos EPISs, mas esse não é o ideal do dia-a-dia, pois nada sai de lá sem estar autoclavado). Existem algumas opções de roupas íntimas descartáveis ou que possam ser autoclavadas
Nessa sala, colocamos os EPIs, checamos a vedação da máscara e verificamos se está tudo perfeito para entrar. Essa sala divide o exterior e o interior do lab, portanto, tem duas portas. Então, finalmente, entramos no laboratório por essa segunda porta.
Salvo por essas modificações de segurança, o NB3 é um laboratório comum; encontramos centrífugas, geladeira, freezer, autoclave, etc. Uma questão específica e importante do laboratório do ICB-USP (Departamento de Microbiologia) é de que ele é um laboratório multi-usuários, ou seja, outros grupos de pesquisa o utilizam.
Dessa forma, a questão de coletividade precisa ser reforçada, especialmente quanto aos acidentes, que devem ser devidamente relatados.
Terminado o trabalho, começa a retirada dos EPIs no laboratório. Claro que existe um protocolo para isso. Primeiro, são retiradas as luvas de cima sem tocar na luva de baixo (são duas luvas mesmo, uma que fica por baixo todo o tempo e uma por cima que deve ser trocada em algumas ocasiões). Depois é preciso tirar o avental de maneira a evitar a formação de aerossóis.
Para retirar os outros, é preciso entrar em uma sala. Nessa salinha, tiramos as botas, os óculos, a burca, o macacão, a máscara e, por fim, as luvas. Depois, seguimos para a sala de banho (sim, banho!). Tem uma ducha bem forte (e quente! É bem gostosa!). O banho deve ser rápido, afinal, outros colegas estarão esperando para sair.
Depois, existe outra salinha onde nos secamos e colocamos a roupa. O armário em que colocamos a nossa roupa antes de entrar tem duas portas. Dessa forma, nesse momento, pegamos a roupa pela outra porta.
Finalmente, é possível sair do laboratório. Na última parte do treinamento, o foco foi o trabalho no fluxo. Tudo protocolado! Antes de começar, é preciso ficar muito atento em relação ao material que será utilizado, pois uma vez que sua mão está lá dentro, a ideia é minimizar as ocasiões em que seja preciso tirá-las, pois você precisará retirar as luvas de cima.
Dessa forma, trabalhar em dupla é bastante recomendado. Além de minimizar o gasto de EPIs, o trabalho rende mais e é mais seguro (caso aconteça algum acidente, você não estará sozinho no laboratório).
A primeira coisa a se fazer é limpar todo o fluxo. A limpeza ocorre em apenas um sentido e o desinfetante (no caso do trabalho com SARS-CoV-2 utiliza-se álcool 70%) deve ser borrifado em todas as paredes e em todos os materiais que ficam no fluxo, como lixo, canetas e até mesmo o frasco de álcool!
Conforme são desinfetados, são transferidos para as áreas já limpas no fluxo.O material que entrará no fluxo, como amostras, racks, tubos, precisa ser limpo duas vezes. Ou seja, saem do armário, são limpos e, ao entrarem no fluxo, são limpos novamente.
A duplicidade é uma característica importante no trabalho em laboratório de segurança de nível 3. É preciso ser bem criterioso para garantir a sua segurança, a dos colegas e para proteger a amostra de contaminação.
Terminado o trabalho, é hora de limpar tudo novamente. O fluxo, o material que fica no fluxo e o material que vai sair. O lixo deve ser trocado e, para sair do fluxo, deve-se borrifar álcool em todo o saquinho.
Lembre-se de que o material que sai do fluxo deve ser limpo novamente antes de entrar no armário. Haja álcool 70%!






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